Outro dia percebi que meu cérebro anda meio preguiçoso. Não é falta de trabalho, mas excesso de telas. Acorda cansado antes mesmo do primeiro café, como se tivesse passado a madrugada correndo atrás de notificações que chegam até quando se dorme. Talvez tenha passado mesmo. A tal vida “onlife”, na infosfera de Floridi.
Isso nos leva a um sedentarismo cognitivo, em que deixamos os algoritmos decidirem: qual a rota ou caminho, o que ler, ouvir, comprar, ou achar sobre o mundo. É como se delegássemos às máquinas: “pensem por mim, que eu estou exausto”. E elas “pensam”. Tanto que a gente quase desaprende.

Ao mesmo tempo em que o pensamento fica sedentário, há algo em nós que se empanturra sem parar, causando verdadeira obesidade digital, expressão utilizada para caracterizar o uso excessivo e saturado de tecnologias digitais desde o início dos anos 2000: Estímulos ultraprocessados: vídeos, memes, “dicas em 10 segundos”, alertas, mensagens, manchetes do tipo “você não vai acreditar!”. Consumimos tudo com a voracidade de quem está sempre com fome, sem perceber que isso não alimenta. Só ocupa espaço.
O resultado dessa receita contemporânea? Desnutrição cultural. Cercados de informação como nunca, mas com cada vez menos conhecimento. Faz sentido. A cabeça fica cheia de fragmentos, mas vazia de estrutura; cheia de dados, pobre de interpretação, empanturrados e famintos ao mesmo tempo.
É como se passássemos o dia inteiro beliscando conteúdo. Nenhum prato principal, sem tempo para mastigar. Nenhuma sobremesa que mereça ser lembrada. Apenas pequenos grãos de atenção gastos em telas que pedem, educadamente, que não desviemos o olhar.
O sedentarismo cognitivo convence a não pensar demais; a obesidade digital entope de estímulos; enquanto a desnutrição cultural nos deixa, no fim do dia, com aquela sensação vaga de que vimos tudo, mas entendemos pouco, permanecemos com fome.
A boa notícia é que a saída ainda existe. Que tal aproveitar alguns momentos das férias ou finais de semana para equilibrar a dieta informacional? Comece com algo simples: ler um texto sem olhar o celular, caminhar sem GPS, assistir a um filme inteiro, do início ao fim, sem pausar para conferir quem curtiu nossa última foto. Não é desconectar, é reconectar com algo mais lento, mais humano. Conexões são bacanas, mas ficam ainda melhores quando a mente respira, os sentidos desaceleram, o pensamento viaja sozinho e voltamos a nos alimentar, de verdade.



















